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20 fevereiro 2014

Ausência


Eis-me
Tendo-me despido de todos os meus mantos
Tendo-me separado de adivinhos mágicos e deuses
Para ficar sozinha ante o silêncio
Ante o silêncio e o esplendor da tua face

Mas tu és de todos os ausentes o ausente
Nem o teu ombro me apoia nem a tua mão me toca
O meu coração desce as escadas do tempo em que não moras
E o teu encontro
São planícies e planícies de silêncio

Escura é a noite
Escura e transparente
Mas o teu rosto está para além do tempo opaco
E eu não habito os jardins do teu silêncio
Porque tu és de todos os ausentes o ausente

Sophia de Mello Breyner Andresen
Livro Sexto

20 julho 2011

Além




do Guardador de Rebanhos - Alberto Caeiro

(...)

Pensar incomoda como andar à chuva

Quando o vento cresce e parece que chove mais.

Não tenho ambições nem desejos

Ser poeta não é uma ambição minha.

É a minha maneira de estar sozinho.

(...)

Quando me sento a escrever versos

Ou, passeando pelos caminhos ou pelos atalhos,

Escrevo versos num papel que está no meu pensamento,

Sinto um cajado nas mãos

E vejo um recorte de mim

No cimo dum outeiro

(...)

17 abril 2011

Identidade



Identidade

Matei a lua e o luar difuso.
Quero os versos de ferro e de cimento.
E em vez de rimas, uso
As consonâncias que há no sofrimento.

Universal e aberto, o meu instinto acode
A todo o coração que se debate aflito.
E luta como sabe e como pode:
Dá beleza e sentido a cada grito.

Mas como as inscrições nas penedias
Têm maior duração,
Gasto as horas e os dias
A endurecer a forma da emoção.

Miguel Torga, in ´Penas do Purgatório´

06 abril 2010

Hábito primeiro


Para crescer tive raiz
Estiquei os braços e voei
Não consegui tudo o que quis
E um dia à terra voltei

Não quis ser o dono de nada
Apenas o reino do hoje
Aqui ao lado passa a estrada
E ao longe a ribeira que foge

Tenho o azul como guarida
O vento como vizinho
Tudo o que conquistei na vida
É companhia do seco pinho

29 fevereiro 2008

Osciloscópio

Vai acima, lentamente
Lá fica, pouco tempo
Vai abaixo, rapidamente
Com o mais leve sopro de vento
Qualquer emoção sobe nas veias
Traz tudo e não traz nada
Uma onda de maré cheia
Molha os pés por quase nada.

Esvanece-se como nevoeiro matinal
Deixa a luz ser sempre igual.

24 fevereiro 2008

Viagens de alma

De onde tirei esta paz
Que ao cair da noite serena
Viaja no banco de trás
Guardando minha alma pequena.

Tenho ainda a casa desarrumada
Aos suspiros e soluços
Mas não a quero cismada
Nem limpa pelos abraços

Um só dia de ambição
Não rende uma fraqueza
Nem faz crescer a paixão
De ver tamanha beleza.

21 abril 2007

Sementeira



Água e terra que se juntam
Seja ao sol ou ao luar
Sementes que lá caiam
Por certo irão vingar
Seja erva ou cereal
Seja árvore ou tojeira
Como nesta vida real
Não há nada que não queira.